Arquivo do dia: 1 de maio de 2009

X-tudo

Meu velho e saudoso pai era um sujeito macho. Que criou o filho e a filha para serem machos.

De modo que fomos criados bem acima da fronteira onde o topete encontra a temeridade, onde ovos cor de abóbora e sonhos suspeitos comungam em vitrinas embaçadas, ao lado de coxinhas encharcadas e empadinhas debutantes. Lá, lá mesmo, onde mistos quentes são feitos em chapas que nada mais são do que placas de petri com aquecimento central.

No tempo em que não existia gordura trans, a vida era dura mas emocionante para as crianças Vitiello, sempre em busca do desconhecido.

Era nos finais de semana que o reinado de terror do pai se instalava – porque justiça seja feita à minha mãe, a velha nos criou com suflês de vegetais, suco sem açúcar, leite B e saladas e nunca esteve envolvida nesse lado trash de nossa existência.

O alvo preferencial de papai eram os botecos.

Comida de boteco.

E tome batatinhas em conserva, pastéis, garapa geladinha, hamburger à milanesa (juro por Deus que existe, eu comi), ovos recheados, salgadinhos vários, sandubas diversos.

Pra beber, às vezes suco de laranja, Às vezes iogurte batido com leite, inclusive pro pai, que não bebia álcool nessas excursões. E, quase sempre, guaraná.

Nós comíamos e olhávamos o mundo. O pai nos fazia prestar atenção à nossa volta e nos estimulava a falar com quem quer que fosse. Víamos aqueles senhorzinhos que, às seis e meia da manhã, já atacavam uma ceveja gelada. Tinha também a turma do Caracu com ovo (Cru! Para nosso espanto, descobrimos que se comia ovo cru! Quando Rocky Balboa apareceu, fomos as únicas crianças que não gritaram de nojo no cinema). Descobríamos que algumas pessoas tinham que contar os trocados para inteirar um sanduíche. Nós, os meninos de classe média, cuidados e preservados durante a semana, protegidos do mundo real, correndo da escola metida a besta pras aulas de equitação, aos sábados e domingos batíamos papo com os caras que lavavam carros no posto ao lado da padaria, com as senhoras que falavam sozinhas enquanto tomavam uma pinguinha (ou duas, ou três), ouvíamos as histórias dos balconistas, quase todos nordestinos, quase todos muito sós, espantados com a cidade, com a vida. Sentados em tamboretes de botecos, meu irmãozinho e eu tivemos contato e conversamos e respondemos perguntas e rimos das piadas e brincamos com os filhos de pessoas as quais, doutra forma, nós nem saberíamos que existiam. Não sei muito bem se o pai fez isso de propósito ou não. Acho que não. Consciência social não era exatamente o forte dele, e além disso ele realmente adorava um boteco.

A comida nos unia. E todos juntos enfrentávamos as sardinhas em conserva, salsichões temperados, pastéis de vento, churrasquinhos de gato, algodões-doces, pratos comercias (“Com ou sem couve, doutor?” “Com, soca couve nessas crianças.”), quebra-queixos divinais, tortas doces e salgadas insuspeitamente boas, risoles suspeitos, sanduíches de mortadela - clássicos ou nem tanto-, lingüiças suculentas, torresmos gigantes.

Não, a comida que você faz em casa não chega nem aos pés da comida de boteco, desista. É outro clima, outro tempero, outro ambiente. A verdadeira empadinha tem outro sabor quando é comida ao lado de um carroceiro que lhe conta sobre sua infância no Jabaquara, quando o bairro era mato e pântanos.

É outra a batatinha frita, quando é comida no colo do seu vô, o Velho Affonso, num boteco da Heitor Penteado, enquanto o velho bate papo com amigos que, como ele, são chegados numa birita e em apostar um dinheirinho nas patas dos cavalos. Você come as batatinhas, as pernas magras do velho lhe servem de ninho, todos os senhorzinhos do boteco dizem que você é linda e fofa, todos eles pagam picolés Chicabom pra você, o Velho Affonso batiza sua soda com o Campari dele (que minha mãe não nos ouça) e a vida é muito boa. Tudo está bem.

Mas, enfim, meus dois velhos botequeiros já se foram há tanto tempo, e nada, nem a coxinha-creme da padoca aqui de perto, nem o Campari do qual me sirvo em meus belos copos de cristal, até na frente da minha mãe, têm o mesmo sabor. Nem a vida, caras. Eu sei.