Arquivo do mês: maio 2009

Paz de tomate

Há algo de calmo, de reconfortante, de cálido, numa boa porção de espaguete ao sugo, com montes de folhas frescas de manjericão e queijo ralado na medida certa. E se ele for comido numa cumbucona, daquelas (sopa), numa sala quase escura, com duas, talvez três taças dum tinto pobre porém honesto, melhor. Você está ali em silêncio, quase sem pensar, e o sal e o doce do tomate fazem companhia, mas a companhia certa, terna e silenciosa que você precisa nesse momento de confusão. Nesse exato momento, sua cumbuca de macarrão é melhor que brigadeiro de colher, quindim ou sorvete de creme com café quente. Sua cumbuca de macarrão dá uma segurança, uma solidez, que nenhum doce é capaz de dar. Você chegou em casa, arrancou o casaco, jogou a bolsa longe, disse boa-noite pro gato, e foi para a cozinha iniciar seu lento ritual de pacificação. Água no fogo, naquela panelona linda. Olha a água fervendo, em silêncio. Depois a massa na água, o molho, o queijo, escolher uma cumbuca bonita, o vinho, o canto da sala. O mundo lá fora ruge furioso, mas você está em paz. Por enquanto.
Tem comidas que são assim. Elas não dão colo, elas não consolam, elas não embalam nossas dores. Elas servem para nos dar paz e para manter o Mal afastado, enquanto nos preparamos para a próxima batalha. Elas são simples de fazer, usam poucos ingredientes e não precisam de nenhum acompanhamento, o que permite que o guerreiro se concentre apenas nela e na sua própria respiração. Era o que Aquiles comia nas praias de Tróia. Era o que o Dr. Martin Luther King comia antes das passeatas pelos direitos humanos. Era o que Aníbal comia, enquanto olhava pros Alpes, olhas pros seus elefantes e pensava “Ah, eu dou conta”. Ou alguém acha que ali, naquela horinha, a minutos da tentativa de encaçapar a bola 8,  eles comiam aperitivos, entradas, risoto afrescalhado e escolhiam entre 3 tipos de sobremesa?

Suflê Meditativo…e muito, muito simples

Ingredientes
2 xícaras (chá) de leite integral
6 ovos inteiros
2 cebolas grande cortada
2 colheres de manteiga
10 colheres de farinha de trigo
sal e pimenta do reino a gosto

Preparo
Bato todos os ingredientes no liquidificador, tomando sempre cuidado em colocar os líquidos antes.
Depois, levo a massa ao forno médio, numa forma untada e enfarinhada.

Espaguete ao sugo

Ingredientes
1 Pacote de espaguete (eu uso o grano duro)
1 quilo de tomates
2 cebolas picadas de manjericão
½ xícara de salsa
½ xícara de cebolinha
sal e pimenta do reino
1 colher (sopa) de açúcar
queijo parmesão ralado

Preparo
Uma das formas de fazer o molho ao sugo, talvez a mais simples, é quando eu liquidifico os tomates, passo a massa por uma peneira e depois levo esse creme ao fogo, onde acrescento, após a fervura, o açúcar, a salsa, a cebola e a cebolinha (atenção! Se você é uma daquelas pobres criaturas que ainda não descobriram o enorme prazer de encontrar pedacinho de cebola na comida, ou tem alguém assim em casa, esqueça a cebola picada!!!). Isso vai cozinhar uns 40 minutos no fogo baixo.
Aí, coloco a maior panela do mundo, cheia de água, no fogo. Não economizo água. O macarrãozinho gosta de nadar com folga. Quando a água ferver, coloco o espaguete lá dentro, espero cozer, tiro, escorro, ponho numa travessa grande, que permita que eu misturo, acrescento o molho, misturo e espalho as folha frescas de manjericão.
Passo uma generosa porção para uma cumbucona, boto queijo ralado (um bom queijo, faz favor, também não economizo no queijo… um queijo ruim bota todo essa trabalho a perder), e vou comer na sala, ouvindo a vida lá fora uivar.

Macarrão à carbonara
Esse macarrão, além de se bom pro guerreiro dar uma pausa na matança dos inocentes, serve pra separar quem é guerreiro mesmo de quem é frouxo. Coragem, as instruções tão certinhas.

Ingredientes
1 pacote de espaguete
300 gr. de bacon cortado em cubinhos
4 Ovos
3 dentes de alho picados
200 gr. parmesão ralado
Sal e pimenta do reino

Modo de Preparo
Enquanto a água do macarrão ferve (muita água, sempre), frito o bacon com o alho. Daí, quebro os ovos numa tigela bato um bocadinho, misturo claras e gemas de leve e misturo com o queijo. Quando o macarrão estiver al dente (não molengo, pelo amor de Deus), ele vai para uma tigela, com o bacon e o alho. Olho vivo e braço ligeiro nessa hora, misturado o bacon e o alho, zup, jogo lá dentro os ovos batidos com o queijo e mais sal e pimenta do reino e misture com garfos de madeira de dentes largos. Morou? Ovo vai cozinhar no macarrão quentão, fora do fogo. Rá.

X-tudo

Meu velho e saudoso pai era um sujeito macho. Que criou o filho e a filha para serem machos.

De modo que fomos criados bem acima da fronteira onde o topete encontra a temeridade, onde ovos cor de abóbora e sonhos suspeitos comungam em vitrinas embaçadas, ao lado de coxinhas encharcadas e empadinhas debutantes. Lá, lá mesmo, onde mistos quentes são feitos em chapas que nada mais são do que placas de petri com aquecimento central.

No tempo em que não existia gordura trans, a vida era dura mas emocionante para as crianças Vitiello, sempre em busca do desconhecido.

Era nos finais de semana que o reinado de terror do pai se instalava – porque justiça seja feita à minha mãe, a velha nos criou com suflês de vegetais, suco sem açúcar, leite B e saladas e nunca esteve envolvida nesse lado trash de nossa existência.

O alvo preferencial de papai eram os botecos.

Comida de boteco.

E tome batatinhas em conserva, pastéis, garapa geladinha, hamburger à milanesa (juro por Deus que existe, eu comi), ovos recheados, salgadinhos vários, sandubas diversos.

Pra beber, às vezes suco de laranja, Às vezes iogurte batido com leite, inclusive pro pai, que não bebia álcool nessas excursões. E, quase sempre, guaraná.

Nós comíamos e olhávamos o mundo. O pai nos fazia prestar atenção à nossa volta e nos estimulava a falar com quem quer que fosse. Víamos aqueles senhorzinhos que, às seis e meia da manhã, já atacavam uma ceveja gelada. Tinha também a turma do Caracu com ovo (Cru! Para nosso espanto, descobrimos que se comia ovo cru! Quando Rocky Balboa apareceu, fomos as únicas crianças que não gritaram de nojo no cinema). Descobríamos que algumas pessoas tinham que contar os trocados para inteirar um sanduíche. Nós, os meninos de classe média, cuidados e preservados durante a semana, protegidos do mundo real, correndo da escola metida a besta pras aulas de equitação, aos sábados e domingos batíamos papo com os caras que lavavam carros no posto ao lado da padaria, com as senhoras que falavam sozinhas enquanto tomavam uma pinguinha (ou duas, ou três), ouvíamos as histórias dos balconistas, quase todos nordestinos, quase todos muito sós, espantados com a cidade, com a vida. Sentados em tamboretes de botecos, meu irmãozinho e eu tivemos contato e conversamos e respondemos perguntas e rimos das piadas e brincamos com os filhos de pessoas as quais, doutra forma, nós nem saberíamos que existiam. Não sei muito bem se o pai fez isso de propósito ou não. Acho que não. Consciência social não era exatamente o forte dele, e além disso ele realmente adorava um boteco.

A comida nos unia. E todos juntos enfrentávamos as sardinhas em conserva, salsichões temperados, pastéis de vento, churrasquinhos de gato, algodões-doces, pratos comercias (“Com ou sem couve, doutor?” “Com, soca couve nessas crianças.”), quebra-queixos divinais, tortas doces e salgadas insuspeitamente boas, risoles suspeitos, sanduíches de mortadela - clássicos ou nem tanto-, lingüiças suculentas, torresmos gigantes.

Não, a comida que você faz em casa não chega nem aos pés da comida de boteco, desista. É outro clima, outro tempero, outro ambiente. A verdadeira empadinha tem outro sabor quando é comida ao lado de um carroceiro que lhe conta sobre sua infância no Jabaquara, quando o bairro era mato e pântanos.

É outra a batatinha frita, quando é comida no colo do seu vô, o Velho Affonso, num boteco da Heitor Penteado, enquanto o velho bate papo com amigos que, como ele, são chegados numa birita e em apostar um dinheirinho nas patas dos cavalos. Você come as batatinhas, as pernas magras do velho lhe servem de ninho, todos os senhorzinhos do boteco dizem que você é linda e fofa, todos eles pagam picolés Chicabom pra você, o Velho Affonso batiza sua soda com o Campari dele (que minha mãe não nos ouça) e a vida é muito boa. Tudo está bem.

Mas, enfim, meus dois velhos botequeiros já se foram há tanto tempo, e nada, nem a coxinha-creme da padoca aqui de perto, nem o Campari do qual me sirvo em meus belos copos de cristal, até na frente da minha mãe, têm o mesmo sabor. Nem a vida, caras. Eu sei.