Paz de tomate

Há algo de calmo, de reconfortante, de cálido, numa boa porção de espaguete ao sugo, com montes de folhas frescas de manjericão e queijo ralado na medida certa. E se ele for comido numa cumbucona, daquelas (sopa), numa sala quase escura, com duas, talvez três taças dum tinto pobre porém honesto, melhor. Você está ali em silêncio, quase sem pensar, e o sal e o doce do tomate fazem companhia, mas a companhia certa, terna e silenciosa que você precisa nesse momento de confusão. Nesse exato momento, sua cumbuca de macarrão é melhor que brigadeiro de colher, quindim ou sorvete de creme com café quente. Sua cumbuca de macarrão dá uma segurança, uma solidez, que nenhum doce é capaz de dar. Você chegou em casa, arrancou o casaco, jogou a bolsa longe, disse boa-noite pro gato, e foi para a cozinha iniciar seu lento ritual de pacificação. Água no fogo, naquela panelona linda. Olha a água fervendo, em silêncio. Depois a massa na água, o molho, o queijo, escolher uma cumbuca bonita, o vinho, o canto da sala. O mundo lá fora ruge furioso, mas você está em paz. Por enquanto.
Tem comidas que são assim. Elas não dão colo, elas não consolam, elas não embalam nossas dores. Elas servem para nos dar paz e para manter o Mal afastado, enquanto nos preparamos para a próxima batalha. Elas são simples de fazer, usam poucos ingredientes e não precisam de nenhum acompanhamento, o que permite que o guerreiro se concentre apenas nela e na sua própria respiração. Era o que Aquiles comia nas praias de Tróia. Era o que o Dr. Martin Luther King comia antes das passeatas pelos direitos humanos. Era o que Aníbal comia, enquanto olhava pros Alpes, olhas pros seus elefantes e pensava “Ah, eu dou conta”. Ou alguém acha que ali, naquela horinha, a minutos da tentativa de encaçapar a bola 8,  eles comiam aperitivos, entradas, risoto afrescalhado e escolhiam entre 3 tipos de sobremesa?

Suflê Meditativo…e muito, muito simples

Ingredientes
2 xícaras (chá) de leite integral
6 ovos inteiros
2 cebolas grande cortada
2 colheres de manteiga
10 colheres de farinha de trigo
sal e pimenta do reino a gosto

Preparo
Bato todos os ingredientes no liquidificador, tomando sempre cuidado em colocar os líquidos antes.
Depois, levo a massa ao forno médio, numa forma untada e enfarinhada.

Espaguete ao sugo

Ingredientes
1 Pacote de espaguete (eu uso o grano duro)
1 quilo de tomates
2 cebolas picadas de manjericão
½ xícara de salsa
½ xícara de cebolinha
sal e pimenta do reino
1 colher (sopa) de açúcar
queijo parmesão ralado

Preparo
Uma das formas de fazer o molho ao sugo, talvez a mais simples, é quando eu liquidifico os tomates, passo a massa por uma peneira e depois levo esse creme ao fogo, onde acrescento, após a fervura, o açúcar, a salsa, a cebola e a cebolinha (atenção! Se você é uma daquelas pobres criaturas que ainda não descobriram o enorme prazer de encontrar pedacinho de cebola na comida, ou tem alguém assim em casa, esqueça a cebola picada!!!). Isso vai cozinhar uns 40 minutos no fogo baixo.
Aí, coloco a maior panela do mundo, cheia de água, no fogo. Não economizo água. O macarrãozinho gosta de nadar com folga. Quando a água ferver, coloco o espaguete lá dentro, espero cozer, tiro, escorro, ponho numa travessa grande, que permita que eu misturo, acrescento o molho, misturo e espalho as folha frescas de manjericão.
Passo uma generosa porção para uma cumbucona, boto queijo ralado (um bom queijo, faz favor, também não economizo no queijo… um queijo ruim bota todo essa trabalho a perder), e vou comer na sala, ouvindo a vida lá fora uivar.

Macarrão à carbonara
Esse macarrão, além de se bom pro guerreiro dar uma pausa na matança dos inocentes, serve pra separar quem é guerreiro mesmo de quem é frouxo. Coragem, as instruções tão certinhas.

Ingredientes
1 pacote de espaguete
300 gr. de bacon cortado em cubinhos
4 Ovos
3 dentes de alho picados
200 gr. parmesão ralado
Sal e pimenta do reino

Modo de Preparo
Enquanto a água do macarrão ferve (muita água, sempre), frito o bacon com o alho. Daí, quebro os ovos numa tigela bato um bocadinho, misturo claras e gemas de leve e misturo com o queijo. Quando o macarrão estiver al dente (não molengo, pelo amor de Deus), ele vai para uma tigela, com o bacon e o alho. Olho vivo e braço ligeiro nessa hora, misturado o bacon e o alho, zup, jogo lá dentro os ovos batidos com o queijo e mais sal e pimenta do reino e misture com garfos de madeira de dentes largos. Morou? Ovo vai cozinhar no macarrão quentão, fora do fogo. Rá.

X-tudo

Meu velho e saudoso pai era um sujeito macho. Que criou o filho e a filha para serem machos.

De modo que fomos criados bem acima da fronteira onde o topete encontra a temeridade, onde ovos cor de abóbora e sonhos suspeitos comungam em vitrinas embaçadas, ao lado de coxinhas encharcadas e empadinhas debutantes. Lá, lá mesmo, onde mistos quentes são feitos em chapas que nada mais são do que placas de petri com aquecimento central.

No tempo em que não existia gordura trans, a vida era dura mas emocionante para as crianças Vitiello, sempre em busca do desconhecido.

Era nos finais de semana que o reinado de terror do pai se instalava – porque justiça seja feita à minha mãe, a velha nos criou com suflês de vegetais, suco sem açúcar, leite B e saladas e nunca esteve envolvida nesse lado trash de nossa existência.

O alvo preferencial de papai eram os botecos.

Comida de boteco.

E tome batatinhas em conserva, pastéis, garapa geladinha, hamburger à milanesa (juro por Deus que existe, eu comi), ovos recheados, salgadinhos vários, sandubas diversos.

Pra beber, às vezes suco de laranja, Às vezes iogurte batido com leite, inclusive pro pai, que não bebia álcool nessas excursões. E, quase sempre, guaraná.

Nós comíamos e olhávamos o mundo. O pai nos fazia prestar atenção à nossa volta e nos estimulava a falar com quem quer que fosse. Víamos aqueles senhorzinhos que, às seis e meia da manhã, já atacavam uma ceveja gelada. Tinha também a turma do Caracu com ovo (Cru! Para nosso espanto, descobrimos que se comia ovo cru! Quando Rocky Balboa apareceu, fomos as únicas crianças que não gritaram de nojo no cinema). Descobríamos que algumas pessoas tinham que contar os trocados para inteirar um sanduíche. Nós, os meninos de classe média, cuidados e preservados durante a semana, protegidos do mundo real, correndo da escola metida a besta pras aulas de equitação, aos sábados e domingos batíamos papo com os caras que lavavam carros no posto ao lado da padaria, com as senhoras que falavam sozinhas enquanto tomavam uma pinguinha (ou duas, ou três), ouvíamos as histórias dos balconistas, quase todos nordestinos, quase todos muito sós, espantados com a cidade, com a vida. Sentados em tamboretes de botecos, meu irmãozinho e eu tivemos contato e conversamos e respondemos perguntas e rimos das piadas e brincamos com os filhos de pessoas as quais, doutra forma, nós nem saberíamos que existiam. Não sei muito bem se o pai fez isso de propósito ou não. Acho que não. Consciência social não era exatamente o forte dele, e além disso ele realmente adorava um boteco.

A comida nos unia. E todos juntos enfrentávamos as sardinhas em conserva, salsichões temperados, pastéis de vento, churrasquinhos de gato, algodões-doces, pratos comercias (“Com ou sem couve, doutor?” “Com, soca couve nessas crianças.”), quebra-queixos divinais, tortas doces e salgadas insuspeitamente boas, risoles suspeitos, sanduíches de mortadela - clássicos ou nem tanto-, lingüiças suculentas, torresmos gigantes.

Não, a comida que você faz em casa não chega nem aos pés da comida de boteco, desista. É outro clima, outro tempero, outro ambiente. A verdadeira empadinha tem outro sabor quando é comida ao lado de um carroceiro que lhe conta sobre sua infância no Jabaquara, quando o bairro era mato e pântanos.

É outra a batatinha frita, quando é comida no colo do seu vô, o Velho Affonso, num boteco da Heitor Penteado, enquanto o velho bate papo com amigos que, como ele, são chegados numa birita e em apostar um dinheirinho nas patas dos cavalos. Você come as batatinhas, as pernas magras do velho lhe servem de ninho, todos os senhorzinhos do boteco dizem que você é linda e fofa, todos eles pagam picolés Chicabom pra você, o Velho Affonso batiza sua soda com o Campari dele (que minha mãe não nos ouça) e a vida é muito boa. Tudo está bem.

Mas, enfim, meus dois velhos botequeiros já se foram há tanto tempo, e nada, nem a coxinha-creme da padoca aqui de perto, nem o Campari do qual me sirvo em meus belos copos de cristal, até na frente da minha mãe, têm o mesmo sabor. Nem a vida, caras. Eu sei.

Tem dias – e cada vez com mais frequência – que só um ovo frito salva. Como hoje. Ou ontem.

No frigir

Pedrão e Bibi

O ovo. Esse desconhecido. Rá, mentira minha, o ovo é nosso conhecidíssimo, amadíssimo, odiadíssimo, tem colesterol, não tem colesterol, come um por semana, come dois por semana, libera, a vida é curta, não, proíbe de novo, isso mata. Ovo, símbolo da vida, todo mundo já foi ovo, o dinossauro, a lontra, o salmão, o Doutor Zahi Hawass também já foi, foram ovos o seu gato, você, seu gerente de banco, até sua omelete já foi ovo. Ah, até a Helga, prestenção, até a Helga já foi ovo. E a galinha, claro, já foi ovo, mas nasceu primeiro. Sacou? Ovo, ovo, ovo, ovos quentes, a mãe, seus aristocráticos ‘ovos de dois minutos’ e minha infância – que parece não ter durado mais de dois minutos, mas que enquanto durou, foi recheada dos mais deliciosos zabaiones que essa mesma mãe dos ovos quentes fazia com os minúsculos ovos beges de nossas galinhazinhas, gemas, vinho do porto, açúcar e braço, a velha não fazia na batedeira não, era no muque, aquele creminho mole sendo batido, batido, batido, o banho maria, a cozinha pequena, ela tinha preparo, para ser mãe há que se ter preparo emocional, mental e também físico, meus senhores. Ovos recheados, delícia portuguesa, comi na Alfama, recheados de gema, sardinha, salsa, tomates, temperos mis, tudo bem misturadinho, depois de subir e descer ladeira, depois de aprender que aqueles castelos gigantes, com veludos e brocados e pentedeiras com espelho bisotê e torres para prender princesinhas vieram depois, que antes um castelo era uma fortificação, tão lá os muros, as escadas, os velhos canhões, as armas e os barões assinalados, as passagens secretas e a vista, ah, a vista, depois de tirar rolos e rolos de filme, fotos lindas, depois de aprender nome e datas e batalhas, depois de temer os mouros, depois de falar com motoristas de táxi engraçadíssimos, depois de pedir explicações para senhorinhas prolixas,  depois de ouvir o garção cantar, comi meus ovos recheados numa mesinha precariamente instalada na calçada, com as mãos, os pés fora dos sapatos, o rosto vermelho, a cabeça apoiada no ombro do pai, que declamava Camões com um sotaque inacreditavelmente autêntico e beijava meus cabelos, e também as memórias gloriosas daqueles reis que foram dilatando a Fé, o Império, e as terras viciosas. Ovos nos botequins que pai e avô nos levavam na infância, cascas cor-de-rosa, azuis e cor-de-abóbora, pedia-se um tremendo de emoção, o azul, não!, péra aê, o rosa, não, péra, deixa eu pensar, só pro pai descascar e, ah, por dentro era só um ovo cozido, igual ao de casa, não tem nada de emocionante, só ovo só, você não lembra, semana passada foi a mesma coisa. Ovos enormes e azuis que uma senhora bigoduda vinha vender num cesto quando morávamos na chácara, os patos também botam ovos sim, como as galinhas, bico de pato, bico de galinha e no que mais são diferentes, muito bem, os pés, os patos são diferentes por que, porque os patos nadam, quá-quá-quá, có-có-có. E a bisavó, sem dinheiro para comprar ovos de Páscoa, fazia os bolinhos doces de sempre, os ciciriciara, ovo, farinha, açúcar e fermento, moldados em formato de ovo, fritava no óleo e passava um por um na calda de açúcar queimado, era a Páscoa, era o símbolo, ali, grudento e delicioso, a menina que foi mãe e antes dela, a menina que foi mãe da mãe, quebravam a casquinha de açúcar no dente e achavam aquilo o céu e sabiam que não havia vida melhor. Ovos com duas gemas, mas como pode, são de pintinhos gêmeos, mamãe? E a constatação assombrada de que todo ovo que comíamos deixava de ser um pintinho, aquela coisa fofa e amarelinha, coberta de pelinho fino, como o cabelo da mãe, como o cabelo do vô, e a conclusão do irmão, que sempre teve pendores científicos, que a gema é que virava pintinho, explicando para sempre o amarelo e as suas conseqüências. Ovos quebrados um a um, com cuidado no potinho verde, ovos que vinham do galinheiro do vô José Menino e que se não virassem bolo, virariam galo de briga, a gema aqui, a  clara ali, cada ovo separado e setorizado, usos e aplicações, a massa, o recheio, a cobertura, a vó fazia bolo para fora, tudo feito com muita economia, com muito zelo, a vó ainda fazia ovos de Páscoa, para vender e para dar pros netos, lindos ovos de chocolate branco, recheados de bombons crocantes, embalados em tule azul para o menino, lindos ovos de chocolate preto para a menina, o rosa do tule, o verde dos bombons de menta, a cara branca da vó que ficava tão vermelha quando elogiada. O irmão, seu aniversário no começo de abril, sua festa tem bolo de coelho e caçada aos ovinhos, esse irmão, a vida toda a sensação que ele era quem trazia a Páscoa, os coelhinhos botadores, o papel colorido, os bombons. A vó que foi falar sobre os ovos da largatixa e a menina quase morreu, como assim, lagartixa bota ovo, bota, largatixa, jacaré, tartaruga, cobra, dinossauro, a menina suando de nervoso e a mãe, para arrematar, lança a bomba de que todo mundo um dia foi ovo, ora, como eu expliquei lá no começo, a mãe diz pra menina que ela já foi um ovinho dentro da barriga da mãe, e que as filhas dela já estão lá, ovos dentro da sua própria barriga, a gente nunca se recupera de certos sustos, eu fui ovo, eu fui ovo e tenho ovo, eu fui ovo. E depois da realidade encarada e aceita, já que até peixe bota ovo, tudo bem se o Velho Affonso comer os ovinhos de peixe, pretos, vermelhos, despretenciosamente, de pé na cozinha tão simples, às colheradas, suas mãos grossas de pedreiro escondiam as latinhas mínimas, ovo em lata, veja você, o mundo nunca parava de espantar a menina que achava os tais ovos de peixe horríveis, mas que adorava o vô, sua calças marrons, adorava quando ele botava um cadinho dos ovinhos na torrada, come belinha, esses aqui não têm gema, mas são ovinhos, come, não vô, mas aqueles outros ovinhos, ovo de codorna, isso, ovo de codorna, aquilo sim, aquele você faz vô que eu como, faço belinha, ovinho de codorna, com azeite e orégano e garfinho de dois dentes, bom?, bom. O Velho também fazia os ovos turcos, receita repetida ou inventada, a menina nunca soube, azeite e os tomates e a cebola, muita cebola, a frigideira da casa do Velho era toda preta e quando tudo estava molengo e cheiroso iam os ovos, um, dois, três e era tudo mexido, e o velho empurrava aquilo tudo pro garfo com o pão, era bom comer no colo dele, pão numa mão, garfo na outra, pão esfregado no prato vazio, bom?, bom. Ovo frito na manteiga, domingo de manhã e ela com o marido, lendo a revista só pra falar mal, de mudinha e meias, com o cabelo despenteado, vamos ver um filme, nãããão, vamos só ficar mudando de canal. Ovos quebrados em cima do molho de tomate, dentro do refratário que ia para o forno, os ovos saiam do forno perfeitinhos, como os da geladeira, papai como chama isso?, Bibi isso chama ‘ovos no inferno’. E a história de que as freiras em Portugal engomavam os hábitos com as claras e usavam as gemas para fazer doces, caixinhas de ovos,  caladinhos, medronhos, cagotes, doces de ovos do convento da Ribeira, vencedores, esquecidos cobertos, lionesas, brisas do Lis, toicinhos do céu, amores de azeitão, ovos moles, jesuítas, escarumbas, celestes de Santa Clara, bispos, cavacas das caldas da rainha, pudins de São Martinho, charcadas à alentejana, trouxas das caldas, arrufadas de Coimbra, delícias à moda de Teresa Pité, fios de ovos, pastéis de nata, alsacianos, doces de Badajoz, jarócas, pudins de ovos dos frades do convento de Alcobaça, amores da curia, torrões de gemas, paraísos, barrigas de freira, natas do céu, sericás, açordas reais, velhoses à antiga portuguesa, africanos, joanas, estrelas de Portugal, pastéis de Santa Clara, arrepiados, rebuçados, sardinhas doces de Nazaré,  fidalguinhos de Braga, meias-luas, melindres, carriços, empenadilhas da Páscoa, caprichos de Setúbal, travesseiros de Sintra, esquecidos da vida, mimosos, raivas do convento da Castanheira, azevias. História tão linda. Mas uma tarde, três horas de andanças no Mosteiro dos Jerónimos, subidas e descidas na Torre de Belém, batatas da perna clinicamente mortas, e sentam-se o pai, a Inesita, a moça, a comer os pastéis de Belém, os legítimos, os de verdade, e o português da mesa ao lado, falante e tranqüilo, pôe-se a exlicar que não, o hábito das freiras é lindo mas a verdade é que Portugal tinha mais ovos que qualquer outro lugar do mundo e usava de seus ovos só a clara, dentro do país ou exportando proutros cantos, para ajudar na puficação do vinho branco e para engomar os ternos de gente rica. E com toda essa demanda de claras, sobravam as gemas, coitadinhas, esquecidas, usadas para alimentar os porcos, os pobres e, por que não, as irmãzinhas de caridade, que faziam milagres açucarados. Mas a moça gosta mais das feiras e de seus hábitos imaculados e, como sempre, escolhe sua verdade e acredita no que quer. E houve ainda o pai da Naty, um guarda-chuva velho e uma dúzia de ovos de galinha, ele vindo do supermercado, o botão vermelho do guarda-chuva dispara sozinho, e lá foi a caixa de ovos pro meio da rua, lançada longe por um guarda-chuvas maluco, que virou quebra-ovos para sempre. A primeira omelete alta e fofa da moça, a primeira que não grudou na frigideira, a primeira que não solou, a primeira boa de mostrar pros outros, o primeiro bolo, a primeira clara em neve, dava  pra virar a tigela de cabeça para baixo que não caía nada, o primeiro bife à milanesa, ovo, farinha, ovo, farinha e ela lembra dos meninos do colégio, a mania besta de jogar ovo na cabeça do aniversariante e a dona do colégio despencava doida da vida no pátio, meninos, não joguem ovos fora, me dêem que eu faço custódio pra vocês, a receita perdida, uma espécie de pudim com calda e também ovinho frito no azeite, as bordas tostadas, a cozinha da Laura, suas panelas de cobre. E  já que lagarto e ganso e pato e dinossauro e águia e dragão de komodo e mosquito e papagaio e corvo e perdiz e codorna e marreco e iguana e cobra e borboleta e peixe e aranha e sapo botam ovo, já que um dia a própria menina botará seus ovinhos, já que as tartaruguinhas correm pela areia recém-nascidas, isso quando não são engolidas ainda ovo por garças de olhos redondos, tudo bem se o coelhinho também botar ovos, e fizer seu ninho escondido, as pegadas de coelho feitas de maisena no chão da cozinha, e ovos-pistas espalhados pela casa, nas gavetas de talheres, dentro das meias, no teclado do piano, atrás dos livros na estante, e no jardim, nas moitas, nas flores, no banco da bicicleta, eita coelho danado, um ninho enorme, os papéis coloridos, o coelho bota o ovo e depois traz, a galinha bota e o coelho só entrega, mistérios, cada ano uma explicação diferente, mas ninguém ligava, porque o futuro estava tão longe e o amanhã ainda não era O Amanhã, e com os braços cheios de coisas deliciosas, ninguém mesmo ia ter força de caráter para investigar o que quer que fosse. Ovo, ovo, ovo, a vida e a ressureição, a esperança, o que se renova, o que se explica e se justifica, o que sempre volta, o que nunca foi, o que é imutável e ainda assim, não permanece, o que se recria, os cabelos escuros do irmão, os cabelos escuros do sobrinho, o que se refaz, o que guarda em si mesmo sua próxima vida, o que nasce primeiro, o que restaura, o que protege, o que nutre, o que ampara, o que procura no jardim, o que se ganha em papel colorido, recheado de bombons, de certeza, de doçura, de amor, de promessas e o futuro que está longe e o amanhã que ainda não é.

Avental

Avental